13.9.08

As plantas supervitaminadas




Universidade Federal de Uberlândia desenvolve alface e outros alimentos com mais vitaminas
Quarta-feira é o dia em que alunos e professores do Instituto de Genética e Bioquímica da Universidade Federal de Uberlândia - UFU -, no Triângulo Mineiro, distribuem gratuitamente para a população os “frutos” de suas pesquisas: sementes de uma alface supervitaminada e outras plantas ricas em vitaminas, mas pouco familiares aos mineiros, como a moringa, o yacón e o camucamu, que estão sendo estudadas com o apoio financeiro da FAPEMIG. “A nossa preocupação é a avitaminose - deficiência em vitamina - e as formas de combatê-la através da alimentação”, explica Cristina Soares de Souza, aluna de Mestrado em Agronomia.
Cristina trabalha no projeto da alface “Uberlândia 10 mil”, uma cultivar desenvolvida pelo Prof. Warwick Estevam Kerr (ver quadro), por meio do melhoramento genético clássico. Considerando que a alface é uma das dez hortaliças mais consumidas no Brasil e é a preferida pelas crianças, o Professor cruzou as cultivares “Moreninha de Uberlândia” e a “Vitória de Santo Antão” e conseguiu pela primeira vez na história da Agronomia, após oito anos de trabalho, uma espécie de alface com 10.200 unidades de vitamina A. Segundo os pesquisadores, uma alface comum possui entre 500 e 1.500 unidades de vitamina A. A “Moreninha de Uberlândia” tem uma quantidade maior - 4.500 unidades -, mas, até então, não se tinha notícia de uma cultivar de alface com mais de 10.000 unidades de vitamina A, o que justifica o sucesso e o nome da alface do Prof. Kerr: a “Uberlândia 10 mil”.

A caracterização genética da alface, também chamada de “impressão digital”, a seleção dos genes responsáveis pela produção da vitamina A e a definição do grau de resistência da “Uberlândia 10 mil” à septoriose - doença que causa considerável perda na produção da alface - são tarefas que estão sendo desenvolvidas por Cristina, sob a orientação do Prof. Kerr, que atualmente também preside o INPA - Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia -, em Manaus, e, por isso, orienta Cristina e outros dez alunos de Mestrado e Doutorado na UFU à distância. “Ele vem à Uberlândia uma vez por mês e fica em média quatro dias. Nos outros dias nós nos comunicamos por telefone ou pela Internet.” Cristina é co-orientada pelo Prof. Armando Takatsu, que faz parte do corpo docente da Universidade de Uberlândia.
Mais vitaminas naturais
Na busca por enriquecer a alimentação dos brasileiros, o Prof. Kerr orienta trabalhos de adaptação de plantas da região amazônica para o cerrado mineiro. Quando mostra o yacón, da família do girassol e original do Equador, o professor não esconde o prazer de ter introduzido em Uberlândia uma raiz com aparência de batata-doce, gosto de fruta e que, apesar de bem docinha, não contém açúcar e sim inulina (substância
orgânica de composição semelhante à do amido), o que é ideal para a alimentação dos diabéticos. O camucamu, que nasce nas margens do rio Amazonas e tem uma frutinha parecida com a jabuticaba, é um verdadeiro tesouro vitamínico. Segundo o Prof. Kerr, “é a planta que tem mais vitamina C entre todas descobertas até hoje, inclusive a acerola”. A polpa da fruta apresenta 3.200 mg de vitamina C por 100g , enquanto a acerola tem de 1.200 a 1.300 mg por 100g.

Já a folha da moringa, um arbusto que chega a cinco metros de altura, além de anticancerígena, contém uma dose elevada de vitamina A - 22 mil unidades em 100 g. Ele conta que ficou impressionado com o resultado obtido junto aos alunos de uma escola no interior de Minas Gerais a partir da introdução da folha da moringa na merenda escolar. Em apenas dois meses, o próprio professor teve a oportunidade de verificar uma visível mudança na aparência física do grupo de crianças, especialmente na pele e nos cabelos, acompanhado de significativo aumento na capacidade de aprendizado atestado pelas professoras. Com o apoio da FAPEMIG, CNPq e da própria UFU, o Prof. Kerr desenvolveu a adaptação da planta em solo mineiro e promoveu a distribuição de 500 mil sementes da planta para a população do Triângulo Mineiro.
O Instituto de Genética e Bioquímica da UFU
A integração é marca registrada no IGB da UFU, especialmente entre o Prof. Kerr e os “desorientados”, como ele chama carinhosamente os alunos sob a sua orientação. O departamento funciona a pleno vapor. Desenvolve atualmente 12 projetos de pesquisas nas linhas de Biologia Molecular, Estrutura e Função de Proteínas e Genética, Biologia e Melhoramento de Plantas e Animais, envolvendo 83 alunos na pós-graduação - 39 no mestrado, 25 no doutorado e 19 especiais, que cursam disciplinas isoladas e atuam nas pesquisas. O apoio da FAPEMIG é marcante tanto no desenvolvimento das pesquisas como na montagem e equipamento dos laboratórios, de acordo com a coordenadora da Pós-Graduação de Genética e Bioquímica, Prof.ª Ana Maria Bonetti.

Sementes da moringa
Warick Kerr - O Cientista que materializa sonhos
O Prof. Warwick Estevam Kerr é, sem dúvida, um dos maiores cientistas do Brasil e do mundo. Além das dezenas de títulos nacionais e das centenas de publicações em revistas científicas internacionais, foi o primeiro pesquisador a ser admitido como membro da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, e único até o ano passado, quando o cientista gaúcho Francisco Salzano também foi integrado. Foi o primeiro presidente da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - e hoje é presidente de honra da instituição.
Aos 78 anos de idade, o pesquisador Kerr conta que sua paixão pelas abelhas começou aos oito anos de idade, quando ganhou do pai uma colméia de abelhas Mandassaia. “Eu ainda nem sabia ler, mas já pensava pra burro”, relembra Warwick Kerr. Entre a curiosidade de criança e o desenvolvimento da pesquisa em genética, o cientista foi o responsável pelo salto do Brasil no ranking mundial da produção de mel. Da 27.ª posição, o país passou a ocupar a 4.ª, perdendo apenas para a Rússia, China e Estados Unidos. Em sua homenagem, existem no Brasil quatro espécies de abelhas kerri (kerri = de Kerr), além da orquídea Cattleya kerri.
“Sou agrônomo. Me preocupo com comida”, diz o Prof. Kerr, que, além do trabalho com as abelhas, está sempre atento à quantidade de vitaminas na alimentação dos brasileiros, especialmente das crianças. Atualmente, como pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia, desenvolve novos cultivares como a alface “Uberlândia 10 mil”, e se dedica também à adaptação de plantas com alto teor vitamínico trazidas de outras regiões para o solo mineiro. Trabalho que ele acumula com as funções de presidente do INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, que, ao contrário do que se pode supor, não representa uma sobrecarga. Ele consegue atuar bem nos dois locais e fazer um intercâmbio com o que tem de melhor em cada um.

Mudas de camucamu
Se ele mesmo resolvesse ser o “garoto-propaganda” dos resultados das suas pesquisas, facilmente faria com que adultos e crianças se rendessem aos efeitos das vitaminas nos alimentos. A aparência dele é invejável para qualquer homem da sua idade. A vitalidade e o bom humor extrapolam os limites da sua personalidade e aglutinam pessoas de todas as idades em sua volta, estimulando-as não apenas para o trabalho, mas principalmente para a vida.
Disposição e entusiasmo é o que nunca faltou na vida do professor. Começou “do zero”, como ele diz, por sete vezes. Obstinado, ele já plantou “sementes” em diversas partes do país. Sementes com duplo sentido. Com muita coragem, há mais de 40 anos, ele vem fundando e fixando cursos de graduação e pós-graduação, alguns em locais onde poucas pessoas ousariam fazê-lo. A característica é sempre a mesma: inicia com o objetivo de fazer o melhor. E tem dado certo. Assim foi em Rio Claro, em 1958, quando foi convidado a implantar o curso de Biologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Em 1962, foi a vez de aceitar o segundo desafio começando do zero: a criação da Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo -, hoje a maior agência estadual de fomento à pesquisa do país, que em 1999 investiu mais de R$ 540 milhões no financiamento de projetos em todas as áreas da Ciência e da Tecnologia, tem repercussão internacional e é reconhecida como modelo para as fundações similares de todos os estados. “Trabalhei como um doido durante três anos entre São Paulo e Rio Claro, porém com a sensação permanente de que estava sendo útil”, conta o professor.
No final de 1964, mudou-se para Ribeirão Preto com a finalidade de chefiar o novo Departamento de Genética da Faculdade de Medicina. Naquela época, foi preso pela segunda vez por protestar contra a tortura policial - a primeira foi em Rio Claro, em 1961, pelo mesmo motivo. Obstinado pela pesquisa, pela sua difusão e, principalmente, pela sua utilização em benefício de todas as pessoas, além, é claro, da formação de novos quadros de doutores e mestres, o cientista sempre refletiu sobre a sua postura perante o conhecimento. No auge da ditadura muitos pesquisadores pararam de produzir, temerosos de que a produção fosse computada como realização do Estado ditatorial. O Prof. Kerr, longe de compactuar com a ditadura, jamais parou de produzir, porque acreditava e acredita que, independente da situação política do país, não se pode parar de produzir pesquisas, sob pena de aumentar o desemprego, a fome, a miséria e o sofrimento.

Warwick Kerr
Foi em março de 1975 que pela primeira vez foi dirigir o INPA, a convite do então presidente do CNPq, José Dion de Melo Teles, onde permaneceu até 1979. Quando recebeu a missão de transformar o instituto em um grande centro de pesquisas, a instituição contava com o trabalho de apenas dois doutores e dois mestres. Quatro anos depois, deixou o INPA com 60 doutores, 52 mestres e 230 pesquisadores.
Em 1981, se aposentou e resolveu atuar no estado mais pobre do Brasil. Consultou levantamentos do IBGE e partiu para o Maranhão, onde começou do zero pela quinta vez. Como professor visitante da UFMA - Universidade Federal do Maranhão - recebeu a incumbência de organizar um curso de Biologia. As condições não eram das melhores. Ele conta que a sua primeira cadeira na universidade era um toco de eucalipto e a mesa, outro toco. Sete anos depois, o curso já era considerado um dos mais conceituados do país. Ainda no Maranhão, em 1987, a sexta missão que iniciou, segundo o professor, não do zero, mas “das ruínas”. Como reitor da Universidade Estadual do Maranhão, recebeu a instituição com uma dívida milionária, estrutura física completamente depredada, sem equipamentos e um quadro de desânimo total entre os professores, funcionários e alunos. Em pouco tempo conseguiu revitalizar a universidade em todos os aspectos, pagar as dívidas, recuperar os salários e a auto-estima da comunidade, implantar atividades científicas e de extensão, além de um programa de produção de sementes hortícolas para sanar a principal deficiência alimentar do estado: a vitamina A.
Missão cumprida no Maranhão. Agora era a vez da sua mulher, dona Lygia, escolher onde morar. Desde o casamento, em 1946, ela acompanhou e apoiou o professor em todas as conquistas profissionais. Para ela, o clima do Nordeste é muito quente. Com convites de 11 universidades, a escolha foi para a de Uberlândia, para onde se mudaram em 1988. Há menos de um ano, novo convite para dirigir o INPA. É claro, o Professor Kerr aceitou.
Em todos estes anos de missões administrativas, em nenhum momento, o Professor Kerr interrompeu suas pesquisas, sempre atento ao potencial que a natureza oferece, em especial com as plantas e abelhas.
Alguns alunos seguem o caminho há anos trilhado pelo mestre e se dedicam às abelhas, como é o caso do jovem biólogo Alexandre Coletto da Silva, estudante da pós-graduação, que está pesquisando e documentando os sistemas nervoso e reprodutor das abelhas indígenas brasileiras sem ferrão (aparelho ferroador atrofiado sem glândulas de produção de veneno), com o objetivo de desenvolver uma técnica para inseminação instrumental que resultará no melhoramento genético das espécies, no manejo racional e na ampliação dos conhecimentos em neurobiologia e biologia reprodutiva dessas abelhas. Outro que também fez a opção pelas abelhas é o estudante de graduação em Ciências Biológicas, Cláudio Franco Muniz, que desenvolveu um sistema eletrônico-computacional para o registro das atividades diárias de vôo das abelhas, o horário e as condições climáticas em que elas saem da colméia. O objetivo é estudar o comportamento das abelhas em resposta às variações do clima e avaliar a adaptação das colônias ao meio ambiente em que estão inseridas. Estudos como estes podem parecer um detalhe, mas é o conjunto dessas pesquisas que fazem do Brasil um dos maiores produtores de mel do mundo.
Links interessantes:
www.ufu.br
www.inpa.gov.br

Um comentário:

Carlos Alberto N. disse...

Evandro, a sua alface super vitaminada me parece ser uma boa solucao tambem para prevenir o aparecimento de doencas em alface. Pergunto: posso conseguir algumas sementes para testar em minha hidroponia?